O certificado que ficou na gaveta
«Já fiz uma formação. Porque é que havia de fazer outra?» Tens razão em perguntar.
Enquadramentoplano médio curto, do peito para cima. Câmara à altura dos olhos dela, nunca mais alta. A Lily fora do centro morto, apoiada numa das linhas de terço, com o olhar a apontar para o lado mais aberto do quadro.
Objeto cénicoela está a acabar de pousar a caixa de material na bancada e levanta o olhar para a lente na primeira palavra. O gesto acaba antes do fim da primeira frase e a partir daí as mãos ficam quietas. Serve para a peça não abrir com uma pessoa parada a falar.
Câmaratelemóvel em tripé, fixo, a cerca de 1,2 m. Sem zoom, sem movimento.
Luzjanela como fonte única, ela virada a três quartos para ela. Evitar a janela atrás (contraluz) e evitar ter a luz do teto acesa ao mesmo tempo (mistura de temperaturas). Luz difusa, de manhã ou início da tarde.
No planotira-se de cima da marquesa tudo o que não pertence ao trabalho (copos, telemóveis, papéis, sacos). Ao fundo fica a marquesa arrumada, desfocada.
Somsom da sala. Microfone de lapela por baixo da roupa, ou o do telemóvel se ela estiver a menos de 1,5 m. Desligar a máquina de Head Spa, ventoinha e ar condicionado; telemóveis em silêncio, não em vibração. Atenção ao barulho da caixa a pousar por cima da primeira palavra: pousa-se antes de falar, não ao mesmo tempo.
Takes4. Um com o gesto e o olhar a subir na primeira palavra. Um já a olhar para a lente, com o gesto acabado antes de a câmara rolar. Um só com a objeção, sem o "Tens razão em perguntar", para a montagem ter margem. Um mais seco e mais rápido.
Erro típico deste takedizer a objeção como se fosse dela. Aquilo é uma citação de quem lhe escreve, e ouve-se pela mudança de voz: a pergunta sobe no fim, e "Tens razão em perguntar" desce e volta à voz dela. O segundo erro é dizê-la na defensiva, como se estivesse a ser acusada de vender formação a quem já tem uma.
Em ecrãLily junto à bancada, a acabar de pousar a caixa de material, levanta o olhar para a lente na primeira palavra. Plano médio
E a minha resposta não é sobre técnica. É sobre o que acontece quando a formação acaba.
Enquadramentoo mesmo do bloco 1, sem mexer no tripé. É continuidade, não plano novo.
Câmarafixa. Se a montagem precisar de disfarçar uma emenda, um push in muito ligeiro feito na edição, nunca com a mão.
Luzigual. Se passar tempo entre blocos e o sol mudar, refazer o bloco 1 a seguir para os dois casarem.
No planoigual ao bloco 1. Nada entra nem sai do quadro, e a caixa fica onde foi pousada.
Somigual. Se alguém falar na sala ao lado, para-se e repete-se; não se salva na edição.
Takes3. Um calmo, a abrir depois da tensão do bloco 1. Um mais direto. Um com uma pausa curta depois de "não é sobre técnica".
Erro típico deste takeresponder a discutir. Este é o bloco de alívio do mapa de temperatura, e a única coisa que tem de fazer é tirar peso à pergunta. Se sair a defender a formação dela, repete-se mais baixo e mais devagar.
Em ecrãA rosto, sem mexer no tripé
E no dia a seguir, quantas pessoas atendeste? Se a resposta for nenhuma, não és a primeira a dizer-me isso.
Enquadramentoquatro planos curtos e fechados, sem rosto nenhum, por esta ordem: a gaveta da bancada a abrir, um papel a ser guardado lá dentro, a gaveta a fechar, e a seguir a caixa de material fechada e a marquesa vazia. Câmara à altura do objeto.
Objeto cénico, e o limite deleo papel nunca se lê, nunca se identifica e a locução não diz de quem é. É o gesto que rima com a palavra "gaveta" da CTA, e não uma afirmação sobre ninguém. Filma-se de cima, com o papel já dobrado ou de costas, e não se aproxima o suficiente para se perceber o que lá está escrito. Se não houver papel de que se possa dispor, este bloco faz-se só com a caixa fechada e a marquesa vazia e a peça não muda nada.
Câmaratelemóvel na mão, apoiado nos dois braços junto ao corpo. Fixo, ou um pan lento de uma ponta da marquesa à outra no plano da marquesa. Distância curta nos objetos (30 a 50 cm).
Luza mesma janela, sem nada acrescentado. Filmar isto antes de a formanda do dia 9 chegar, com a sala ainda intacta.
No planosó o que já está lá. Não se põe material a mais em cima da marquesa para ficar bonito, não se abre a caixa e não se acende vela nenhuma.
Somgrava-se com som real, e o som da gaveta a fechar é para guardar limpo: é o único ruído da peça e vale por si por baixo da pergunta. Na montagem este corte fica com a voz dela por cima.
Takes2 de cada plano, um fixo e um com o pan lento. Do bloco da gaveta, 3 tomas: a gaveta fecha-se devagar numa, seca noutra, e numa terceira fecha-se sem o papel, como reserva.
Erro típico deste takearrumar a sala para a câmara, ou fechar a gaveta com força a marcar o ponto. O gesto é banal de propósito. O outro erro é filmar isto depois de a sala já ter sido usada, e aí já não é uma sala pronta, é uma sala arrumada.
Em ecrãCorte: a gaveta da bancada a abrir, um papel a ser guardado lá dentro, a gaveta a fechar. A seguir a caixa de material fechada e a marquesa vazia
Já me chegaram mulheres com o curso feito e sem terem atendido ninguém. Perguntei-lhes o que faltou.
Enquadramentovolta ao plano médio do bloco 1, mesma posição. Se a Carolina quiser marcar o regresso, um passo mais fechado (do ombro para cima) e mantém-se assim até ao fim.
Câmarafixa, tripé. Se ficar mais fechada, aproximar o tripé, nunca usar zoom digital.
Luzigual. Vigiar a sombra do nariz: se ela rodar a cabeça a mais, a sombra corta a boca e a legenda queimada fica por cima do escuro.
No planoigual.
Somigual.
Takes3. Uma seguida. Uma com pausa antes de "Perguntei-lhes o que faltou". Uma mais baixa.
Erro típico deste takedizer isto com voz de quem tem pena. Este é o bloco de alívio e é constatação, não é conforto. O outro erro é acrescentar exemplos que não estão no guião: o que ela pode dizer é o que respondeu a 03/09, e mais nada. Nenhum número, e nunca "muitas".
Em ecrãVolta a rosto
Falaram-me das dúvidas que só aparecem depois, e de como se chega às primeiras clientes. É tudo do dia a seguir ao certificado, e é aí que ninguém está a olhar.
Enquadramentoo mesmo do bloco 4. Olhar direto na lente do princípio ao fim.
Câmarafixa. Zero movimento: é a frase que a peça existe para dizer.
Luzigual.
No planoigual. Se houver alguém na sala, sai antes deste bloco, mesmo fora de quadro.
Somsilêncio total à volta. Se houver música na montagem, baixa ainda mais aqui.
Takes4, e é aqui que se gastam tomas. É o bloco mais longo da peça, o mais lento e o mais baixo. Uma com as duas faltas seguidas. Uma com pausa entre a primeira e a segunda. Uma a contar pelos dedos. Uma quarta com pausa antes de "É tudo do dia a seguir ao certificado". Em todas a expressão sai inteira, sem sinónimos e sem abreviar.
Erro típico deste takeacelerar para caber. Se o total esticar, os segundos tiram-se do bloco 4, nunca deste. O outro erro é engolir a expressão por já a ter dito muitas vezes este mês, ou trocá-la por "o dia seguinte". Se sair diferente, repete-se, e não se salva na legenda queimada.
Em ecrãA rosto, tom baixo
Se tens um certificado numa gaveta, diz-me nos comentários o que é que te faltou no dia a seguir.
Enquadramentoigual ao bloco 5. Nada muda no fecho.
Câmarafixa. Deixar correr 2 segundos depois de ela acabar, para a montagem ter cauda.
Luzigual.
No planoigual.
Somigual. Se houver música, corta-se aqui ou baixa-se por baixo da última frase.
Takes2. Um a acabar com um meio sorriso, um sério. A CTA diz-se palavra por palavra como está no guião, porque é a mesma da legenda (R3).
Erro típico deste takemudar a CTA ao dizer ("conta-me aqui em baixo", "escreve-me"). Muda e deixa de bater com a legenda. O segundo erro é sorrir a pedir: a peça é de reconhecimento, não de simpatia.
Em ecrãA rosto, fecho